Devemos trocar a privacidade pelo bem-estar?

Devemos trocar a privacidade pelo bem-estar?

Devemos trocar a privacidade pelo bem-estar… apenas se nos for conveniente! O trade-off entre a proteção dos nossos dados pessoais e a nossa experiência como consumidores até ao momento tem-nos sido vantajosa. Mais existem algumas nuvens negras no horizonte!

Num futuro muito próximo, ao sair do seu local de trabalho, o armário de medicamentos (farmácia) de sua casa irá enviar-lhe uma mensagem com a lista de medicamentos em falta, bem como as coordenadas GPS, para o seu automóvel autónomo, da farmácia mais próxima. Ao chegar ao local de recolha dos fármacos, o farmacêutico para além dos medicamentos para os diabetes do seu cônjuge acrescenta à lista um antigripal e uns comprimidos para a garganta para sua filha e um after sun para o seu filho surfista (informação recolhida nas redes sociais ou de uma empresa de análise de dados biométricos). De seguida a caminho de uma grande superfície para comprar um micro-ondas para substituir o avariado no dia anterior, recebe a confirmação pelo seu banco do pagamento da farmácia. Ao chegar ao parque de estacionamento as câmaras de videovigilância enviam os seus dados biométricos para todas as lojas do centro comercial. Ao entrar na loja de eletrodomésticos, um colaborador irá recebê-lo pelo seu nome próprio e posteriormente encaminhá-lo para uma shortlist de micro-ondas selecionados para si, uma vez que algoritmo do centro comercial calcula uma probabilidade de 95% de entrar nesta loja. Este colaborador (no futuro a função terá o nome conselheiro ou hospitaleiro) selecionado irá receber a sua informação financeira, familiar, social, económica, psicológica e cultural, de modo a proporcionar-lhe a melhor experiência como cliente. Depois de deixar para trás a loja de eletrodomésticos, decide passar na ourivesaria. O “conselheiro” sabendo do aniversário do seu cônjuge disponibilizará uma amostra de relógios adequados ao gosto individual do seu cônjuge, mas também ao seu perfil financeiro.

Neste último parágrafo misturei uma série de conceitos como a IOT (internet das coisas), redes sociais, videovigilância, geolocalização, big data, AI (Inteligência Artificial), veículos autônomos, real time data e business intelligence, entre outras, no entanto omiti propositadamente a privacidade e a proteção de dados pessoais. Por falar em dados pessoais, é extraordinário o número de entidades e pessoas anónimas que irão ter acesso aos nossos dados no futuro. A título de exemplo e unicamente levando em conta a minha história de ficção cientifica (já não devemos estar muito longe realidade) teremos a nossa informação pessoal partilhada por: farmácias, empresas que gerem as redes socias, empresas de geolocalização, marcas de automóveis, bancos, hospitais, centro comercial, marcas/lojas, empresas de recolha de informação, empresas de segurança, empresas de análise de dados e entidades do estado todas a partilhar a nossa informação pessoal.

É inegável que todos os conceitos e avanços tecnológicos trazem enorme poupança de tempo e um maior conforto, o que corresponde a uma melhor qualidade de vida para pessoas.

No entanto, não quero destacar os riscos das quebras de segurança já sobejamente conhecidos, arriscamo-nos a perder os pequenos segredos que nos deixam e nos permitem sermos felizes.  Os pequenos segredos, as mentiras piedosas, as profundas omissões, os mistérios escabrosos e as histórias ocultas retratadas na peça de teatro Perfeitos Desconhecidos (Perfect Strangers) deixarão de existir. A título de exemplo da nossa pequena história, quiçá o filho não quisesse  que os pais soubessem que tinha ido fazer surf, porque lhes tinha dito que ia para casa de um amigo estudar para as frequências ou pior o cônjuge receber a notificação de pagamento na ourivesaria estragando a surpresa da prenda de aniversário. Este pequenos nadas do nosso quotidiano que valem imenso para a nossa felicidade.

Julgo que estas inconveniências é que não vamos querer no futuro, mas que serão impossíveis de corrigir porque os sistemas são binários, enviar ou não enviar uma notificação, recolher ou não recolher os dados biométricos, criar perfis de cliente ou não criar… mas grave, muito grave é a partilha de dados entre empresas, entidades e sistemas com o nosso consentimento. A riqueza da informação obtida com cruzamento dos dados de várias entidades tem um potencial catastrófico de aproveitamento inconveniente e aproveitamento inapropriado. Ao consentirmos que estas entidades partilhem dados entre si, para utilizarmos uma app ou para termos um tratamento mais personalizado, muitas das vezes sem ler as condições, estamos a negar o nosso direito de termos segredos. Será que queremos perder esse direito?

 

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